Gilvan Freire faz revelações bombásticas: "Nenhum líder político da PB merece confiança"
Ex-líder do Governo Cássio surpreende; houve abuso e cassação foi merecida
Confira a íntegra da entrevista exclusiva do ex-deputado Gilvan Freire ao jornalista Ytalo Kubitschek, para o Portal MaisPB:
MaisPB – Por que o senhor saiu da TV Master?
Gilvan Freire – Achei que estava na hora de sair. O relacionamento estava ficando incômodo, pessoalmente continuamos nos tratando muito bem, mas no Conexão Master o relacionamento era ríspido. Com um dos integrantes da bancada, que não quero citar o nome, a convivência estava insustentável. A TV Master, como todas as TVs, tem dependências econômicas com o Governo. Para evitar molestar as minhas relações de amizade com eles, preferi sair do programa. Devo registrar, até para informar a quem se interessa por esse assunto, que durante os mais de dois anos de convivência na casa, tive total apoio e liberdade tanto de Alex, como de toda a família. Nossa relação é extremamente respeitosa. Apenas isso é que me manteve tanto tempo no programa. Não tenho interesse, no entanto, de restabelecer nenhuma relação além da nossa boa amizade.
MaisPB – O fato de o programa ter um viés governista lhe fez se sentir isolado?
Gilvan Freire – Não. Se fosse isso seria até estimulante. Quando eu sinto que há um setor que me acua, eu resolvo reagir. Desenvolvi uma boa experiência para reagir a esse tipo de situação. Não me incomodava. O que me incomodou no concreto é que no último programa que participei, houve uma supervalorização da opinião dos tuiteiros contrários a mim. Houve um tuiteiro ‘carimbado’ que tinha opiniões desrespeitosas em relação a mim, o que me deixaria até estimulado se pudesse respondê-lo, porque suporto bem as críticas. Mas, dentro do programa, soube que havia um integrante que retuitava as mensagens desrespeitosas contra mim. Quando outro membro do programa repercute algo ‘escrachando’ seu colega... Achei que era uma deslealdade e saí. Embora ninguém na TV jamais tenha me cerceado. Tudo se processava nos bastidores. Se ele se contrapusesse a mim no programa, não me teria gerado nenhum desconforto, mas repercutir uma agressão sem o meu conhecimento, foi uma deslealdade.
MaisPB – O sr foi uma das primeiras pessoas que defenderam publicamente a aliança entre Cássio e Ricardo, de onde surgiu essa idéia?
Gilvan Freire – A conjugação do meu esforço junto com Armando Abílio para a aliança entre Ricardo e Cássio veio depois de iniciativas anteriores minhas de aproximá-los, já antes de 2008. Quando era líder do governo, sempre defendi essa relação política entre ambos, porque Dr. Cássio estava muito mal na capital. Havia um mal estar na população de João Pessoa em relação à Cássio, decorrente da força do Correio Da Paraíba junto à opinião pública da capital. Para suprir esse ser e para evitar que Ricardo fortalecesse sua aliança com Maranhão, no auge dos processos eleitorais contra Cássio, eu defendia a aproximação administrativa entre o governo e a prefeitura, até para impedir que setores do ‘Ricardismo’ se afinassem com o PMDB contra Cássio. E também defendia que Cássio estendesse esses laços para uma composição política para o futuro, isso enfraqueceria José Maranhão e poderia desempatar a briga. Ricardo era uma figura nova, ascendente, e estava com a gestão muito bem avaliada. Essa via de aproximação ajudaria a desfazer a imagem hostil que Cássio tinha na capital. Aproveitei a convivência que tive com Ricardo na Assembléia Legislativa para selar essa aproximação. Fiz essa ponte imaginando que daí decorreria bons efeitos em âmbito político. E trabalhei muito por essa teoria.
MaisPB – E como ficou Cícero Lucena nessa história?
Gilvan Freire – Cícero era um setor de resistência, mas acompanhou essa discussão. Eu sempre lancei a discussão de forma muito leal com ele, lhe dei todo o conhecimento. Achei que era uma medida importante para Cássio no sentido de desmobilizar setores hostis ao seu governo. Cícero não gostava disso e me reclamou várias vezes, com a intimidade que nós temos. Ele me dizia que aquilo era ruim para ele, porque o isolaria. Mas Cícero sozinho não estava resolvendo o impasse de Cássio na capital. Era preciso afastar Ricardo de Maranhão, e livrar Cássio do cerco de hostilidade que João Pessoa fazia contra o governo. Tentei isso num 1° plano, lá em 2004 na eleição contra Ruy Carneiro, não consegui. Mas obtive êxito em 2008, quando convenci a tirar Cássio da capital, inclusive comunicando os motivos a João Gonçalves, que era o candidato oficial.
MaisPB – E a sua relação com Ricardo Coutinho era muito intensa?
Gilvan Freire – Após todas essas tentativas de aproximação com Cássio, Ricardo me convidou para compor a sua equipe de auxiliares, na condição de coordenador do seu plano de governo. Viajamos muito juntos percorrendo o estado. Eu acreditei que Ricardo Coutinho fosse o único líder com capacidade de transformar o modelo de administração tradicional da Paraíba e em uso há bastante tempo. Achei que ele era uma figura nova que se interpunha numa relação conflituosa e desgastante de brigas entre o 'Maranhismo' e o 'Cassismo'. Apostei que ele era o fato novo dessa nova classe política com capacidade de transformar os costumes políticos, as ações de governo, as relações entre os líderes e acabar com essa briga que atrasa a Paraíba.
MaisPB – Por que o senhor se afastou de Ricardo?
Gilvan Freire – No curso dessa relação, já após a reeleição de Ricardo Coutinho, nós começamos a montagem do seu projeto de disputar o Governo do Estado. Nesse ínterim entre 2008 e 2010, nós estreitamos muito o nosso contato pessoal. E me surpreendi muito com o tipo de reação que Ricardo tinha com as lideranças políticas. Quanto mais eu trabalhava para aproximá-los das lideranças, mais ele se afastava. Ao ponto de entrarmos em um restaurante, com 10 deputados numa mesa e ele não se dirigir para cumprimentar esses deputados. Eu passei a sentir dificuldade para criar relações com vistas ao projeto político dele em 2010. Como sou acostumado a fazer engenharia política, achava que Ricardo precisava se relacionar com a classe política, além da capital. Como conheço bem a geopolítica do estado, andei com ele pelo interior do estado.
MaisPB – Conte mais sobre essas andanças com Ricardo pelo interior?
Gilvan Freire – Um exemplo, fomos à princesa Isabel, na casa de Dr. Sidney, um prefeito que poderia ajudá-lo. Ou visitávamos o prefeito ou o líder da oposição em cada município, alinhado sempre ao 'Cassismo'. A partir daí comecei a ver a grande dificuldade que é ter amizade com Ricardo Coutinho, ter certeza que você trata com amigo. Na medida em que eu era afetivo, e ele inafetivo, isso foi nos distanciando. As nossas formas de ver as relações humanas são completamente opostas. Um fato que me chocou muito foi uma pessoa que tratava com Ricardo todos os dias me confessar que fazia mais de 30 dias que não recebia um "bom dia" dele. Isso aferia a personalidade dele. Outra situação, eu ia saindo com ele do Centro Administrativo, quando uma idosa esperava por ele no corredor e queria um minutinho de atenção. Ela se atirou para abraçá-lo, ele deu um freio desconcertante: "Será que a senhora pode me deixar ir almoçar", ele disse. Não custaria nada ter sido mais elegante, isso me feriu mais do que feriu aquela senhora. Nunca barganhei nada com Ricardo, nunca lhe pedi um emprego, mas tinha insegurança na sua amizade. No meu escritório, cheguei a fazer reuniões com figuras das mais interessantes da sua administração, a exemplo de Estelizabel, uma das suas secretárias mais competentes. Havia uma confiança.
MaisPB – Houve algum episódio que provocou o rompimento entre vocês?
Gilvan Freire – Não. O fato é que Ricardo e eu temos personalidades diametralmente opostas e eu não faço concessões à minha personalidade. Não quero conviver com pessoas que não tenham afetividade.
MaisPB – O senhor tem sido um crítico muito feroz de Ricardo no governo, mas não o criticava quando prefeito. O que mudou do Ricardo prefeito para o Ricardo governador?
Gilvan Freire – Ricardo na administração municipal quis construir um modelo de aceitação popular para ser reeleito, conseguiu. A regra é essa, fazer concessões para atender a prostituta chamada reeleição. Todos os governantes fazem gravíssimas concessões para atender ao projeto de reeleição. O erário cede, as licitações, as obras direcionadas com fins eleitoreiros. Ricardo não fugiu a essa regra. Também lhe fortaleceu o desgaste da 2ª gestão de Cícero, que não foi boa, deu chances de Ricardo fazer o diferente. Ele teve grandes ganhos com isso e recebeu apoio popular. Na prefeitura, a oposição à Ricardo era frágil. Ruy Carneiro não tem perfil de opositor, João Gonçalves idem, esse tem um viés governista e funeralista. (risos) Cícero ficou retraído e a bancada de oposição na câmara também, por tabela. Atualmente, na Assembléia Legislativa, Ricardo enfrenta uma oposição atrevida, que vasculha o governo às escâncaras. Ricardo enfrenta uma forte resistência de setores sociais que não teve na prefeitura. Ele tem hoje a generalidade dos servidores públicos contra ele, isso afeta mais de 400 mil pessoas indiretamente. Ele engrossou no trato com a classe política. Se esse nível de relacionamento persistir, ele não conseguirá implantar nenhuma reforma. Hoje você tem um presidente de Assembléia que reage ao governo, isso é muito raro, só ocorreu com Burity. Alguns deputados que foram duros com Burity se acabaram, mas Burity se acabou antes. No final das contas, quem perdeu foi Burity. A habilidade política de Ricardo Marcelo faz dele um grande contraponto e alavanca a sua liderança perante os colegas, transmitindo um instinto de proteção. Ricardo Marcelo é sereno, não hostiliza, mas responde todas as hostilidades. A briga do governo com o Fisco foi muito desinteligente, a briga com a UEPB e várias outras. Mesmo diante desses problemas todos, não há o menor interesse de resolvê-los minimamente e deixar de comprar mais conflitos. É difícil fazer uma boa gestão com a cabeça tumultuada como eu imagino que fique a dele diante desses fatos todos. O mínimo de habilidade que Ricardo desenvolveu quando prefeito desapareceu quando ele assumiu o governo.
MaisPB – O que o senhor pensa sobre Estela Bezerra?
Gilvan Freire – Eu considero Estelizabel um dos quadros técnicos mais capazes que já conheci. Ela era o melhor quadro que Ricardo tinha na administração municipal. Além disso, é a maior especialista em Ricardo Coutinho, entende bem o que Ricardo quer, não tem barreiras com ele. Por compreender o papel estratégico dela, tem sido recompensada. Ela recebeu uma demonstração ímpar de confiança ao ser lançada por ele, sobrepondo Luciano Agra. Ela enfrentou na eleição a resistência de setores mais conservadores da sociedade, mas superou as expectativas. Ricardo tem um ganho extra com Estelizabel na Secom, embora Tatiana Domiciano tenha sido jeitosa e tenha cumprido o seu dever na pasta.
MaisPB – E Nonato Bandeira?
Gilvan Freire – A gente mede Nonato hoje porque se juntou com Agra, que em princípio ele sempre foi contra, até ajudando Ricardo a não se entender com Agra. Nonato queria que Ricardo o escolhesse como candidato, não conseguindo, se indispôs com Estelizabel, assumindo a defesa da candidatura de Agra. Nonato estava isolado, Ricardo começou a afogá-lo, e Nonato agarrou em Agra como uma boia para não se afogar. Nonato é um cara muito capaz, é perceptivo, é estratégico. Mas Nonato hoje é assunto na pauta porque se juntou a Agra e derrotou Ricardo. Mas se eles tivessem perdido... Tiveram a felicidade de Luciano Cartaxo colocar a candidatura ao interesse dos dois, de forma muito inteligente. Mas se isso não tivesse acontecido, ninguém estaria nem falando nos dois. Eu previa que Nonato fosse esmagado, ele não foi. Todo o mérito para os sobreviventes, nenhum mérito para os mortos. Ricardo hoje tem que enfrentar os três, Nonato, Agra e Cartaxo. Embora ache que Cartaxo não vá ser hostil.
MaisPB – O sr inclui Cartaxo no hall de inimigos de Ricardo Coutinho?
Gilvan Freire – Não. Cartaxo não tem perfil para contestar, nem para se opor. Não radicaliza e não apresenta muitas opiniões discordantes.
MaisPB – Mas ele foi um destacado opositor de Ricardo na Assembléia?
Gilvan Freire – Não acho. Essa oposição dele é frágil. Era tão oposição a Ricardo, quanto a Agra. Por uma conveniência, ele se aproximou de Agra, o que foi correto do ponto de vista eleitoral. Acho que ele também aceitaria o apoio de Ricardo, se fosse conveniente. O governo Luciano Agra é o mesmo de Ricardo Coutinho. A contradição da eleição de João Pessoa é a população dizer que rejeita Ricardo Coutinho, mas aprova a continuidade do governo que ele deixou. Sociologicamente, ninguém consegue explicar isso.
MaisPB – Qual o futuro de Agra?
Gilvan Freire – Agra vai depender do PT. E depender do PT sem ser petista é um grande risco. Pertencer a um agrupamento petista é nunca se desarmar. O PT tem muitos agrupamentos disputando espaços entre si. E isso é recorrente, toda eleição um fica contra o outro. Uma parte do PT está no governo e apoiará Ricardo Coutinho, outra parte apoiará Veneziano. O PT deverá criar muitos problemas para Luciano Agra. Eu não sei como Luciano Agra vai vencer esse ser. Se Agra vai para dentro do PT, para não ser um estranho ao PT, ou vai continuar sendo um estranho fora do PT e alijado da administração. A menos que haja um grande esforço partidário em sentido contrário, Agra chegará esquecido em 2014.
MaisPB – Fala-se muito na polarização Ricardo x Veneziano em 2014; O sr acredita que Cássio pode alterar esse jogo?
Gilvan Freire – 2014 é um ano a se descobrir. Veneziano vai ter que enfrentar alguns senões, ele ainda tem pendências judiciais, que podem colocar em risco a sua candidatura. Ele venceu os processos até aqui, mas alguns já subiram para instâncias superiores. Ainda tem essa incerteza. Já Ricardo Coutinho tem tantos problemas acumulados na administração por conta dos conflitos que compra e da falta de vigilância com certas áreas da gestão, como área de licitação, que põe o governo sempre em risco em relação a Lei das Inelegibilidades. O governo é pouco vigilante em relação aos escândalos que ocorrem através de pessoas íntimas e bem relacionadas com o núcleo central. Soma aos outros problemas que ainda não chegaram ao judiciário, mas ensejam a discussão política. Então Ricardo é um cara com um mandato sob-risco de uma eventual intervenção dos outros poderes na administração dele. Um impeachment de Ricardo na Assembléia não é impossível. Se Ricardo não der uma guinada, vai enfrentar dificuldades ainda maiores a partir de 2013, porque vai chegando perto da reeleição e as pressões aumentam. Ricardo não tem um maior amigo (entre aspas) do que Cássio. Essa amizade é de se indagar, como é de se indagar toda relação política entre dois líderes quando envolve interesses. Eu apostaria que é uma relação muito tumultuada e muito frágil. Na hora em que se elogiam, não são sinceros. O que mais me incomoda no processo político é a insinceridade. Cássio vai ao aniversário de Ricardo, mas dois dias antes diz que Ricardo nunca passou no seu gabinete em Brasília... Denuncia os atos de desatenção, mas ainda assim se mantém aliado político. A conversa de que Cássio e Ricardo estão bem é uma deslavada mentira. Não admitem os conflitos por conveniência de interesses pessoais.
MaisPB – O sr acredita que eles estarão unidos ou rompidos em 2014?
Gilvan Freire – As conveniências dos dois é que vão ditar as alianças que serão feitas. Se Cássio não puder ser candidato, para ele será mais interessante ficar com Ricardo. Se Cássio puder ser candidato, certamente não vai se compor de novo com Ricardo Coutinho. Setores descontentes que votaram em Ricardo, a pedido de Cássio, e até setores da oposição vão pressioná-lo a ser candidato. Cássio tem muito mais viabilidade eleitoral que Ricardo. O povo costuma escolher pela dianteira, quem tem mais chances. Cássio seduz até os opositores do governo Ricardo. Se Cássio tem a perspectiva de ser governo, logo ele tem a força que um governo tem. Mais forte que o poder imediato é a perspectiva de poder. Se Cássio puder ser candidato, míngua as possibilidades de Ricardo e de Veneziano, desequilibrando os dois. A elegibilidade de Cássio é minha maior dúvida. E conjecturemos além, se nem Cássio, nem Ricardo e nem Veneziano estiverem com viabilidade jurídica...
MaisPB – O sr acredita em algum outro nome que possa surgir da sombra e ganhe o Governo?
Gilvan Freire – No vazio, toda sombra é vulto. Um vem e diz: Ricardo Marcelo. Outro vem e diz: Aguinaldo Ribeiro. Outro diz: Wellington Roberto. Enfim, começam a surgir nomes. Até Luciano Cartaxo, se tiver um vazio, pode se aventurar. Na impossibilidade de Veneziano ser candidato, tem toda a lógica Vitalzinho ser recrutado para substituí-lo, levando em consideração o fato de ele ter sido o campeão de votos em João Pessoa quando se elegeu senador. Todos os nomes que entrarem no tabuleiro podem ser recrutados.
MaisPB – Quais os nomes mais fortes para disputar o Senado?
Gilvan Freire – Ricardo Marcelo com a força da Assembléia e da bancada do PEN. Aguinaldo Ribeiro com a força do Ministério das Cidades e do Governo Federal. Rômulo Gouveia é forte pelo carisma. Wellington Roberto pelas bases municipais. Wilson Santiago pela condição financeira, é extremamente rico. Dinheiro sempre é um fator preponderante numa eleição. O próprio Maranhão ainda pode ser recrutado. Cícero também não está morto. A avalanche da perspectiva de candidatura de Cássio pode favorecer Cícero, como também pode favorecer Agra.
Questões do passado
MaisPB – O sr foi candidato a governador em 1998 contra José Maranhão, ao invés de tentar sua reeleição para deputado federal, valeu a pena?
Gilvan Freire – Tive mais perdas do que ganhos. Mas até para sair da política isso me ajudou. Sair da política foi um grande ganho na minha vida. Sai da política bem, retomei a minha vida profissional com muito êxito, com muita euforia, o que não é fácil de conseguir com 34 anos de profissão eu eu reconquistei o meu entusiasmo pela advocacia. O papel na mídia me levou circunstancialmente a ter uma importância que o mandato nem me dava. É muito bom para você não sentir a falta do mandato. Na mídia, eu sinto que minha relação é muito mais forte com todos os setores da população, o meu papel é conceitualmente muito melhor compreendido do que na tribuna. Um exemplo disso, é que ano passado no meu aniversário eu recebi mais de mil mensagens pelo Facebook. Somada toda a minha vida pública, nunca recebi tantas mensagens no meu aniversário. Eu transito num supermercado com uma desenvoltura gratificante e sou muito compreendido. O papel que tive na TV Master foi muito substancial até para me trazer um agrado espiritual.
MaisPB – O sr se arrepende de ter entrado na vida pública?
Gilvan Freire – No concreto, eu tive perdas na política que ninguém gostaria de ter. Eu quando entrei na política, eu achava que iria passar inicialmente 12 anos, queria me eleger deputado estadual, depois federal e pronto. Eu gosto de medir as coisas pela amizade e tenho muitas na classe política. Mas o meu maior desencontro, minha confiança zero em qualquer líder. O meu grau de confiança neles não passa de zero. Nenhum líder político da Paraíba merece confiança. Não confio nas boas intenções deles em relação ao futuro da Paraíba. Todos os governadores da Paraíba foram medíocres, inclusive os meus maiores amigos. O que fizeram diante do que deveriam fazer foi muito pouco. Cheguei à conclusão de que o governo é uma deformidade. As brigas são paroquiais e familiares. Os projetos pessoais deles custam mais caro que as obras públicas, as concessões são gravíssimas, e o padrão de moralidade é sempre muito aquém.
MaisPB – E o sr acredita que isso pode mudar?
Gilvan Freire – Eu tinha esperança que Ricardo Coutinho quebrasse todo esse modelo. Mas o modelo dele é tão atritado, tão confuso, tão conflituoso, que não serviu para nada. Ele vai ficando perturbado cada vez mais e deixa de realizar o bem comum, que é o que mais interessa. Eu não tenho confiança em governo nenhum.
MaisPB – O sr não confiava nem no governo em que era líder?
Gilvan Freire – Confiança no líder, eu nunca tive em nenhum, nem em Cássio, para quem liderei a bancada na Assembléia.
MaisPB – O sr acha que a cassação de Cássio foi justa?
Gilvan Freire – Acho. Cássio abusou do Governo no programa da FAC. Sem os abusos ele não teria sido reeleito.
MaisPB – A CPI do Correio foi um abuso do Governo Cássio?
Gilvan Freire – A CPI mostrou que éramos um Governo frágil e sem coragem de enfrentar o Sistema Correio. Usamos a CPI para diminuir a intensidade das críticas do Correio ao Governo, botamos o Correio no canto da parede durante um bom tempo que durou a CPI e poderíamos ter desmontado o Correio. Eu nunca quis desmontar o Correio, porque o objetivo não era silenciar a imprensa, mas frear a oposição que a imprensa fazia ao Governo. E não o fazia por razões de imprensa, mas por outras razões. Foi um instante para “desacuar” o Governo, que se encontrava acuado pelo Correio sem nenhum instrumento de contenção. A CPI do Correio foi um instrumento de contenção. Depois disso, conversamos com o Correio e estabelecemos um mínimo de equilíbrio para o Correio não engolir o Governo Cássio. A CPI do Correio foi uma pressão para gerar um equilíbrio. A missão foi cumprida.
MaisPB – Um episódio histórico e traumático da política da PB foi o caso Gulliver, o sr foi testemunha ocular do fato, por que aquilo aconteceu?
Gilvan Freire – O episódio do Gulliver trouxe para mim a sensação de que Ronaldo era um homem frágil. (Voz embargada) Ele foi capaz de violentar a natureza dele para fazer o que não tinha nenhuma pretensão de fazer. Ronaldo era um homem capaz de ser atingido por violentas emoções. A defesa da honra do filho o levou a prática de um homicídio, que não se consumou. Ele tomou a decisão de assassinar Burity. O fato novo em relação a isso é que Ronaldo se suicidaria logo em seguida.
MaisPB – Quem impediu que ele se suicidasse?
Gilvan Freire – Eu ajudei a impedir. Manoel Gaudêncio segurou o braço dele e tomou a arma, enquanto eu socorria Burity nos meus braços. Depois do socorro a Burity, saímos dali, eu, Cícero, Ronaldo e o motorista. E nesse trajeto para lhe dar fuga, eu descobri que Ronaldo não queria mais viver, seu projeto naquele dia era o suicídio. Se Manoel Gaudêncio não tivesse tomado a arma das mãos de Ronaldo, ele teria se matado. Eu tenho 100% de certeza que Ronaldo saiu de casa para assassinar Burity e depois se suicidar. Atentou isso por uma circunstância estranha a vontade dele e não se matou também por uma circunstância estranha a vontade dele.
MaisPB – Falando em Ronaldo, é verdade que nos seus últimos dias de vida, Maranhão lhe pediu para intermediar com a família a possibilidade de visitá-lo? Por que a visita não ocorreu?
Gilvan Freire – Nos últimos dias de vida de Ronaldo, Maranhão me pediu para falar com a família, porque gostaria muito de visitá-lo. Eu liguei para Cícero e pedi que ele falasse com Cássio, achei que Cícero fazia melhor esse papel do que eu, e pedi que me desse o retorno. Cássio deu o retorno a Cícero enfatizando que da parte dele não tinha problema, mas precisava ouvir a família. E aí como a resposta não veio, Maranhão também não tocou mais no assunto, e eu senti que outras pessoas passaram a interferir. Acho que não tive o prestígio para cumprir bem essa missão.
GILVAN FREIRE - PING-PONG
Ricardo Coutinho
Um líder complicado, difícil, enigmático e não muito normal.
Cássio Cunha Lima
Um líder que já foi muito arrogante e resolveu “maneirar” na sua personalidade para se tornar maior do que era. Poderia passar a receita para Ricardo Coutinho.
Veneziano Vital do Rêgo
Um líder afoito, atrevido, obstinado, que é a sua principal característica, mas ainda tem um projeto muito ‘campinista’. Precisa ter um projeto fora de Campina Grande.
José Maranhão
Um líder muito vivido, muito experiente, muito maduro, refletido, e um tanto concentrador.
Luciano Agra
Uma incógnita.
Luciano Cartaxo
Segunda incógnita.
O maior desafio da Paraíba
Vencer a seca e o analfabetismo.
Gostaria de ver diferente na Paraíba daqui há dez anos?
Que as lideranças novas pensassem totalmente diferente do que as velhas pensam.
Um arrependimento
Eita... Não sou muito de me arrepender das coisas... Talvez eu tivesse agido melhor em 1998 não assumindo a candidatura a governador e renovando o meu mandato de deputado federal. Mas acho que foi importante haver uma oposição naquela eleição.
Um orgulho
A construção da minha família. O papel de chefe de família eu cumpro muito bem.
Uma pessoa fundamental na sua vida?
Minha mulher, meus filhos, meus netos, meu pai e minha mãe.
Uma viagem inesquecível
Às casas de velhos eleitores amigos. (Olhos marejados)
Bebida preferida
Um vinho.
Mania ou hábito?
Dormir tarde. E acordar cedo.
Uma música?
Eita... Uma música recente de Paula Fernandes que é de Renato Teixeira, não me veio o nome agora. E toda a obra de Luiz Gonzaga.
Um filme?
Os dos maiores gênios do cinema: Charlie Chaplin e John Wayne. Toda a obra deles.
Um livro?
A Bíblia Sagrada.
Uma frase?
Sou frasista, gosto de mais de trezentas. Mas para citar uma especial: “O comportamento é o espelho no qual refletimos a nossa própria imagem”, de Goethe.
Ytalo Kubitschek
MaisPB
MaisPB – Por que o senhor saiu da TV Master?
Gilvan Freire – Achei que estava na hora de sair. O relacionamento estava ficando incômodo, pessoalmente continuamos nos tratando muito bem, mas no Conexão Master o relacionamento era ríspido. Com um dos integrantes da bancada, que não quero citar o nome, a convivência estava insustentável. A TV Master, como todas as TVs, tem dependências econômicas com o Governo. Para evitar molestar as minhas relações de amizade com eles, preferi sair do programa. Devo registrar, até para informar a quem se interessa por esse assunto, que durante os mais de dois anos de convivência na casa, tive total apoio e liberdade tanto de Alex, como de toda a família. Nossa relação é extremamente respeitosa. Apenas isso é que me manteve tanto tempo no programa. Não tenho interesse, no entanto, de restabelecer nenhuma relação além da nossa boa amizade.
MaisPB – O fato de o programa ter um viés governista lhe fez se sentir isolado?
Gilvan Freire – Não. Se fosse isso seria até estimulante. Quando eu sinto que há um setor que me acua, eu resolvo reagir. Desenvolvi uma boa experiência para reagir a esse tipo de situação. Não me incomodava. O que me incomodou no concreto é que no último programa que participei, houve uma supervalorização da opinião dos tuiteiros contrários a mim. Houve um tuiteiro ‘carimbado’ que tinha opiniões desrespeitosas em relação a mim, o que me deixaria até estimulado se pudesse respondê-lo, porque suporto bem as críticas. Mas, dentro do programa, soube que havia um integrante que retuitava as mensagens desrespeitosas contra mim. Quando outro membro do programa repercute algo ‘escrachando’ seu colega... Achei que era uma deslealdade e saí. Embora ninguém na TV jamais tenha me cerceado. Tudo se processava nos bastidores. Se ele se contrapusesse a mim no programa, não me teria gerado nenhum desconforto, mas repercutir uma agressão sem o meu conhecimento, foi uma deslealdade.
MaisPB – O sr foi uma das primeiras pessoas que defenderam publicamente a aliança entre Cássio e Ricardo, de onde surgiu essa idéia?
Gilvan Freire – A conjugação do meu esforço junto com Armando Abílio para a aliança entre Ricardo e Cássio veio depois de iniciativas anteriores minhas de aproximá-los, já antes de 2008. Quando era líder do governo, sempre defendi essa relação política entre ambos, porque Dr. Cássio estava muito mal na capital. Havia um mal estar na população de João Pessoa em relação à Cássio, decorrente da força do Correio Da Paraíba junto à opinião pública da capital. Para suprir esse ser e para evitar que Ricardo fortalecesse sua aliança com Maranhão, no auge dos processos eleitorais contra Cássio, eu defendia a aproximação administrativa entre o governo e a prefeitura, até para impedir que setores do ‘Ricardismo’ se afinassem com o PMDB contra Cássio. E também defendia que Cássio estendesse esses laços para uma composição política para o futuro, isso enfraqueceria José Maranhão e poderia desempatar a briga. Ricardo era uma figura nova, ascendente, e estava com a gestão muito bem avaliada. Essa via de aproximação ajudaria a desfazer a imagem hostil que Cássio tinha na capital. Aproveitei a convivência que tive com Ricardo na Assembléia Legislativa para selar essa aproximação. Fiz essa ponte imaginando que daí decorreria bons efeitos em âmbito político. E trabalhei muito por essa teoria.
MaisPB – E como ficou Cícero Lucena nessa história?
Gilvan Freire – Cícero era um setor de resistência, mas acompanhou essa discussão. Eu sempre lancei a discussão de forma muito leal com ele, lhe dei todo o conhecimento. Achei que era uma medida importante para Cássio no sentido de desmobilizar setores hostis ao seu governo. Cícero não gostava disso e me reclamou várias vezes, com a intimidade que nós temos. Ele me dizia que aquilo era ruim para ele, porque o isolaria. Mas Cícero sozinho não estava resolvendo o impasse de Cássio na capital. Era preciso afastar Ricardo de Maranhão, e livrar Cássio do cerco de hostilidade que João Pessoa fazia contra o governo. Tentei isso num 1° plano, lá em 2004 na eleição contra Ruy Carneiro, não consegui. Mas obtive êxito em 2008, quando convenci a tirar Cássio da capital, inclusive comunicando os motivos a João Gonçalves, que era o candidato oficial.
MaisPB – E a sua relação com Ricardo Coutinho era muito intensa?
Gilvan Freire – Após todas essas tentativas de aproximação com Cássio, Ricardo me convidou para compor a sua equipe de auxiliares, na condição de coordenador do seu plano de governo. Viajamos muito juntos percorrendo o estado. Eu acreditei que Ricardo Coutinho fosse o único líder com capacidade de transformar o modelo de administração tradicional da Paraíba e em uso há bastante tempo. Achei que ele era uma figura nova que se interpunha numa relação conflituosa e desgastante de brigas entre o 'Maranhismo' e o 'Cassismo'. Apostei que ele era o fato novo dessa nova classe política com capacidade de transformar os costumes políticos, as ações de governo, as relações entre os líderes e acabar com essa briga que atrasa a Paraíba.
MaisPB – Por que o senhor se afastou de Ricardo?
Gilvan Freire – No curso dessa relação, já após a reeleição de Ricardo Coutinho, nós começamos a montagem do seu projeto de disputar o Governo do Estado. Nesse ínterim entre 2008 e 2010, nós estreitamos muito o nosso contato pessoal. E me surpreendi muito com o tipo de reação que Ricardo tinha com as lideranças políticas. Quanto mais eu trabalhava para aproximá-los das lideranças, mais ele se afastava. Ao ponto de entrarmos em um restaurante, com 10 deputados numa mesa e ele não se dirigir para cumprimentar esses deputados. Eu passei a sentir dificuldade para criar relações com vistas ao projeto político dele em 2010. Como sou acostumado a fazer engenharia política, achava que Ricardo precisava se relacionar com a classe política, além da capital. Como conheço bem a geopolítica do estado, andei com ele pelo interior do estado.
MaisPB – Conte mais sobre essas andanças com Ricardo pelo interior?
Gilvan Freire – Um exemplo, fomos à princesa Isabel, na casa de Dr. Sidney, um prefeito que poderia ajudá-lo. Ou visitávamos o prefeito ou o líder da oposição em cada município, alinhado sempre ao 'Cassismo'. A partir daí comecei a ver a grande dificuldade que é ter amizade com Ricardo Coutinho, ter certeza que você trata com amigo. Na medida em que eu era afetivo, e ele inafetivo, isso foi nos distanciando. As nossas formas de ver as relações humanas são completamente opostas. Um fato que me chocou muito foi uma pessoa que tratava com Ricardo todos os dias me confessar que fazia mais de 30 dias que não recebia um "bom dia" dele. Isso aferia a personalidade dele. Outra situação, eu ia saindo com ele do Centro Administrativo, quando uma idosa esperava por ele no corredor e queria um minutinho de atenção. Ela se atirou para abraçá-lo, ele deu um freio desconcertante: "Será que a senhora pode me deixar ir almoçar", ele disse. Não custaria nada ter sido mais elegante, isso me feriu mais do que feriu aquela senhora. Nunca barganhei nada com Ricardo, nunca lhe pedi um emprego, mas tinha insegurança na sua amizade. No meu escritório, cheguei a fazer reuniões com figuras das mais interessantes da sua administração, a exemplo de Estelizabel, uma das suas secretárias mais competentes. Havia uma confiança.
MaisPB – Houve algum episódio que provocou o rompimento entre vocês?
Gilvan Freire – Não. O fato é que Ricardo e eu temos personalidades diametralmente opostas e eu não faço concessões à minha personalidade. Não quero conviver com pessoas que não tenham afetividade.
MaisPB – O senhor tem sido um crítico muito feroz de Ricardo no governo, mas não o criticava quando prefeito. O que mudou do Ricardo prefeito para o Ricardo governador?
Gilvan Freire – Ricardo na administração municipal quis construir um modelo de aceitação popular para ser reeleito, conseguiu. A regra é essa, fazer concessões para atender a prostituta chamada reeleição. Todos os governantes fazem gravíssimas concessões para atender ao projeto de reeleição. O erário cede, as licitações, as obras direcionadas com fins eleitoreiros. Ricardo não fugiu a essa regra. Também lhe fortaleceu o desgaste da 2ª gestão de Cícero, que não foi boa, deu chances de Ricardo fazer o diferente. Ele teve grandes ganhos com isso e recebeu apoio popular. Na prefeitura, a oposição à Ricardo era frágil. Ruy Carneiro não tem perfil de opositor, João Gonçalves idem, esse tem um viés governista e funeralista. (risos) Cícero ficou retraído e a bancada de oposição na câmara também, por tabela. Atualmente, na Assembléia Legislativa, Ricardo enfrenta uma oposição atrevida, que vasculha o governo às escâncaras. Ricardo enfrenta uma forte resistência de setores sociais que não teve na prefeitura. Ele tem hoje a generalidade dos servidores públicos contra ele, isso afeta mais de 400 mil pessoas indiretamente. Ele engrossou no trato com a classe política. Se esse nível de relacionamento persistir, ele não conseguirá implantar nenhuma reforma. Hoje você tem um presidente de Assembléia que reage ao governo, isso é muito raro, só ocorreu com Burity. Alguns deputados que foram duros com Burity se acabaram, mas Burity se acabou antes. No final das contas, quem perdeu foi Burity. A habilidade política de Ricardo Marcelo faz dele um grande contraponto e alavanca a sua liderança perante os colegas, transmitindo um instinto de proteção. Ricardo Marcelo é sereno, não hostiliza, mas responde todas as hostilidades. A briga do governo com o Fisco foi muito desinteligente, a briga com a UEPB e várias outras. Mesmo diante desses problemas todos, não há o menor interesse de resolvê-los minimamente e deixar de comprar mais conflitos. É difícil fazer uma boa gestão com a cabeça tumultuada como eu imagino que fique a dele diante desses fatos todos. O mínimo de habilidade que Ricardo desenvolveu quando prefeito desapareceu quando ele assumiu o governo.
MaisPB – O que o senhor pensa sobre Estela Bezerra?
Gilvan Freire – Eu considero Estelizabel um dos quadros técnicos mais capazes que já conheci. Ela era o melhor quadro que Ricardo tinha na administração municipal. Além disso, é a maior especialista em Ricardo Coutinho, entende bem o que Ricardo quer, não tem barreiras com ele. Por compreender o papel estratégico dela, tem sido recompensada. Ela recebeu uma demonstração ímpar de confiança ao ser lançada por ele, sobrepondo Luciano Agra. Ela enfrentou na eleição a resistência de setores mais conservadores da sociedade, mas superou as expectativas. Ricardo tem um ganho extra com Estelizabel na Secom, embora Tatiana Domiciano tenha sido jeitosa e tenha cumprido o seu dever na pasta.
MaisPB – E Nonato Bandeira?
Gilvan Freire – A gente mede Nonato hoje porque se juntou com Agra, que em princípio ele sempre foi contra, até ajudando Ricardo a não se entender com Agra. Nonato queria que Ricardo o escolhesse como candidato, não conseguindo, se indispôs com Estelizabel, assumindo a defesa da candidatura de Agra. Nonato estava isolado, Ricardo começou a afogá-lo, e Nonato agarrou em Agra como uma boia para não se afogar. Nonato é um cara muito capaz, é perceptivo, é estratégico. Mas Nonato hoje é assunto na pauta porque se juntou a Agra e derrotou Ricardo. Mas se eles tivessem perdido... Tiveram a felicidade de Luciano Cartaxo colocar a candidatura ao interesse dos dois, de forma muito inteligente. Mas se isso não tivesse acontecido, ninguém estaria nem falando nos dois. Eu previa que Nonato fosse esmagado, ele não foi. Todo o mérito para os sobreviventes, nenhum mérito para os mortos. Ricardo hoje tem que enfrentar os três, Nonato, Agra e Cartaxo. Embora ache que Cartaxo não vá ser hostil.
MaisPB – O sr inclui Cartaxo no hall de inimigos de Ricardo Coutinho?
Gilvan Freire – Não. Cartaxo não tem perfil para contestar, nem para se opor. Não radicaliza e não apresenta muitas opiniões discordantes.
MaisPB – Mas ele foi um destacado opositor de Ricardo na Assembléia?
Gilvan Freire – Não acho. Essa oposição dele é frágil. Era tão oposição a Ricardo, quanto a Agra. Por uma conveniência, ele se aproximou de Agra, o que foi correto do ponto de vista eleitoral. Acho que ele também aceitaria o apoio de Ricardo, se fosse conveniente. O governo Luciano Agra é o mesmo de Ricardo Coutinho. A contradição da eleição de João Pessoa é a população dizer que rejeita Ricardo Coutinho, mas aprova a continuidade do governo que ele deixou. Sociologicamente, ninguém consegue explicar isso.
MaisPB – Qual o futuro de Agra?
Gilvan Freire – Agra vai depender do PT. E depender do PT sem ser petista é um grande risco. Pertencer a um agrupamento petista é nunca se desarmar. O PT tem muitos agrupamentos disputando espaços entre si. E isso é recorrente, toda eleição um fica contra o outro. Uma parte do PT está no governo e apoiará Ricardo Coutinho, outra parte apoiará Veneziano. O PT deverá criar muitos problemas para Luciano Agra. Eu não sei como Luciano Agra vai vencer esse ser. Se Agra vai para dentro do PT, para não ser um estranho ao PT, ou vai continuar sendo um estranho fora do PT e alijado da administração. A menos que haja um grande esforço partidário em sentido contrário, Agra chegará esquecido em 2014.
MaisPB – Fala-se muito na polarização Ricardo x Veneziano em 2014; O sr acredita que Cássio pode alterar esse jogo?
Gilvan Freire – 2014 é um ano a se descobrir. Veneziano vai ter que enfrentar alguns senões, ele ainda tem pendências judiciais, que podem colocar em risco a sua candidatura. Ele venceu os processos até aqui, mas alguns já subiram para instâncias superiores. Ainda tem essa incerteza. Já Ricardo Coutinho tem tantos problemas acumulados na administração por conta dos conflitos que compra e da falta de vigilância com certas áreas da gestão, como área de licitação, que põe o governo sempre em risco em relação a Lei das Inelegibilidades. O governo é pouco vigilante em relação aos escândalos que ocorrem através de pessoas íntimas e bem relacionadas com o núcleo central. Soma aos outros problemas que ainda não chegaram ao judiciário, mas ensejam a discussão política. Então Ricardo é um cara com um mandato sob-risco de uma eventual intervenção dos outros poderes na administração dele. Um impeachment de Ricardo na Assembléia não é impossível. Se Ricardo não der uma guinada, vai enfrentar dificuldades ainda maiores a partir de 2013, porque vai chegando perto da reeleição e as pressões aumentam. Ricardo não tem um maior amigo (entre aspas) do que Cássio. Essa amizade é de se indagar, como é de se indagar toda relação política entre dois líderes quando envolve interesses. Eu apostaria que é uma relação muito tumultuada e muito frágil. Na hora em que se elogiam, não são sinceros. O que mais me incomoda no processo político é a insinceridade. Cássio vai ao aniversário de Ricardo, mas dois dias antes diz que Ricardo nunca passou no seu gabinete em Brasília... Denuncia os atos de desatenção, mas ainda assim se mantém aliado político. A conversa de que Cássio e Ricardo estão bem é uma deslavada mentira. Não admitem os conflitos por conveniência de interesses pessoais.
MaisPB – O sr acredita que eles estarão unidos ou rompidos em 2014?
Gilvan Freire – As conveniências dos dois é que vão ditar as alianças que serão feitas. Se Cássio não puder ser candidato, para ele será mais interessante ficar com Ricardo. Se Cássio puder ser candidato, certamente não vai se compor de novo com Ricardo Coutinho. Setores descontentes que votaram em Ricardo, a pedido de Cássio, e até setores da oposição vão pressioná-lo a ser candidato. Cássio tem muito mais viabilidade eleitoral que Ricardo. O povo costuma escolher pela dianteira, quem tem mais chances. Cássio seduz até os opositores do governo Ricardo. Se Cássio tem a perspectiva de ser governo, logo ele tem a força que um governo tem. Mais forte que o poder imediato é a perspectiva de poder. Se Cássio puder ser candidato, míngua as possibilidades de Ricardo e de Veneziano, desequilibrando os dois. A elegibilidade de Cássio é minha maior dúvida. E conjecturemos além, se nem Cássio, nem Ricardo e nem Veneziano estiverem com viabilidade jurídica...
MaisPB – O sr acredita em algum outro nome que possa surgir da sombra e ganhe o Governo?
Gilvan Freire – No vazio, toda sombra é vulto. Um vem e diz: Ricardo Marcelo. Outro vem e diz: Aguinaldo Ribeiro. Outro diz: Wellington Roberto. Enfim, começam a surgir nomes. Até Luciano Cartaxo, se tiver um vazio, pode se aventurar. Na impossibilidade de Veneziano ser candidato, tem toda a lógica Vitalzinho ser recrutado para substituí-lo, levando em consideração o fato de ele ter sido o campeão de votos em João Pessoa quando se elegeu senador. Todos os nomes que entrarem no tabuleiro podem ser recrutados.
MaisPB – Quais os nomes mais fortes para disputar o Senado?
Gilvan Freire – Ricardo Marcelo com a força da Assembléia e da bancada do PEN. Aguinaldo Ribeiro com a força do Ministério das Cidades e do Governo Federal. Rômulo Gouveia é forte pelo carisma. Wellington Roberto pelas bases municipais. Wilson Santiago pela condição financeira, é extremamente rico. Dinheiro sempre é um fator preponderante numa eleição. O próprio Maranhão ainda pode ser recrutado. Cícero também não está morto. A avalanche da perspectiva de candidatura de Cássio pode favorecer Cícero, como também pode favorecer Agra.
Questões do passado
MaisPB – O sr foi candidato a governador em 1998 contra José Maranhão, ao invés de tentar sua reeleição para deputado federal, valeu a pena?
Gilvan Freire – Tive mais perdas do que ganhos. Mas até para sair da política isso me ajudou. Sair da política foi um grande ganho na minha vida. Sai da política bem, retomei a minha vida profissional com muito êxito, com muita euforia, o que não é fácil de conseguir com 34 anos de profissão eu eu reconquistei o meu entusiasmo pela advocacia. O papel na mídia me levou circunstancialmente a ter uma importância que o mandato nem me dava. É muito bom para você não sentir a falta do mandato. Na mídia, eu sinto que minha relação é muito mais forte com todos os setores da população, o meu papel é conceitualmente muito melhor compreendido do que na tribuna. Um exemplo disso, é que ano passado no meu aniversário eu recebi mais de mil mensagens pelo Facebook. Somada toda a minha vida pública, nunca recebi tantas mensagens no meu aniversário. Eu transito num supermercado com uma desenvoltura gratificante e sou muito compreendido. O papel que tive na TV Master foi muito substancial até para me trazer um agrado espiritual.
MaisPB – O sr se arrepende de ter entrado na vida pública?
Gilvan Freire – No concreto, eu tive perdas na política que ninguém gostaria de ter. Eu quando entrei na política, eu achava que iria passar inicialmente 12 anos, queria me eleger deputado estadual, depois federal e pronto. Eu gosto de medir as coisas pela amizade e tenho muitas na classe política. Mas o meu maior desencontro, minha confiança zero em qualquer líder. O meu grau de confiança neles não passa de zero. Nenhum líder político da Paraíba merece confiança. Não confio nas boas intenções deles em relação ao futuro da Paraíba. Todos os governadores da Paraíba foram medíocres, inclusive os meus maiores amigos. O que fizeram diante do que deveriam fazer foi muito pouco. Cheguei à conclusão de que o governo é uma deformidade. As brigas são paroquiais e familiares. Os projetos pessoais deles custam mais caro que as obras públicas, as concessões são gravíssimas, e o padrão de moralidade é sempre muito aquém.
MaisPB – E o sr acredita que isso pode mudar?
Gilvan Freire – Eu tinha esperança que Ricardo Coutinho quebrasse todo esse modelo. Mas o modelo dele é tão atritado, tão confuso, tão conflituoso, que não serviu para nada. Ele vai ficando perturbado cada vez mais e deixa de realizar o bem comum, que é o que mais interessa. Eu não tenho confiança em governo nenhum.
MaisPB – O sr não confiava nem no governo em que era líder?
Gilvan Freire – Confiança no líder, eu nunca tive em nenhum, nem em Cássio, para quem liderei a bancada na Assembléia.
MaisPB – O sr acha que a cassação de Cássio foi justa?
Gilvan Freire – Acho. Cássio abusou do Governo no programa da FAC. Sem os abusos ele não teria sido reeleito.
MaisPB – A CPI do Correio foi um abuso do Governo Cássio?
Gilvan Freire – A CPI mostrou que éramos um Governo frágil e sem coragem de enfrentar o Sistema Correio. Usamos a CPI para diminuir a intensidade das críticas do Correio ao Governo, botamos o Correio no canto da parede durante um bom tempo que durou a CPI e poderíamos ter desmontado o Correio. Eu nunca quis desmontar o Correio, porque o objetivo não era silenciar a imprensa, mas frear a oposição que a imprensa fazia ao Governo. E não o fazia por razões de imprensa, mas por outras razões. Foi um instante para “desacuar” o Governo, que se encontrava acuado pelo Correio sem nenhum instrumento de contenção. A CPI do Correio foi um instrumento de contenção. Depois disso, conversamos com o Correio e estabelecemos um mínimo de equilíbrio para o Correio não engolir o Governo Cássio. A CPI do Correio foi uma pressão para gerar um equilíbrio. A missão foi cumprida.
MaisPB – Um episódio histórico e traumático da política da PB foi o caso Gulliver, o sr foi testemunha ocular do fato, por que aquilo aconteceu?
Gilvan Freire – O episódio do Gulliver trouxe para mim a sensação de que Ronaldo era um homem frágil. (Voz embargada) Ele foi capaz de violentar a natureza dele para fazer o que não tinha nenhuma pretensão de fazer. Ronaldo era um homem capaz de ser atingido por violentas emoções. A defesa da honra do filho o levou a prática de um homicídio, que não se consumou. Ele tomou a decisão de assassinar Burity. O fato novo em relação a isso é que Ronaldo se suicidaria logo em seguida.
MaisPB – Quem impediu que ele se suicidasse?
Gilvan Freire – Eu ajudei a impedir. Manoel Gaudêncio segurou o braço dele e tomou a arma, enquanto eu socorria Burity nos meus braços. Depois do socorro a Burity, saímos dali, eu, Cícero, Ronaldo e o motorista. E nesse trajeto para lhe dar fuga, eu descobri que Ronaldo não queria mais viver, seu projeto naquele dia era o suicídio. Se Manoel Gaudêncio não tivesse tomado a arma das mãos de Ronaldo, ele teria se matado. Eu tenho 100% de certeza que Ronaldo saiu de casa para assassinar Burity e depois se suicidar. Atentou isso por uma circunstância estranha a vontade dele e não se matou também por uma circunstância estranha a vontade dele.
MaisPB – Falando em Ronaldo, é verdade que nos seus últimos dias de vida, Maranhão lhe pediu para intermediar com a família a possibilidade de visitá-lo? Por que a visita não ocorreu?
Gilvan Freire – Nos últimos dias de vida de Ronaldo, Maranhão me pediu para falar com a família, porque gostaria muito de visitá-lo. Eu liguei para Cícero e pedi que ele falasse com Cássio, achei que Cícero fazia melhor esse papel do que eu, e pedi que me desse o retorno. Cássio deu o retorno a Cícero enfatizando que da parte dele não tinha problema, mas precisava ouvir a família. E aí como a resposta não veio, Maranhão também não tocou mais no assunto, e eu senti que outras pessoas passaram a interferir. Acho que não tive o prestígio para cumprir bem essa missão.
GILVAN FREIRE - PING-PONG
Ricardo Coutinho
Um líder complicado, difícil, enigmático e não muito normal.
Cássio Cunha Lima
Um líder que já foi muito arrogante e resolveu “maneirar” na sua personalidade para se tornar maior do que era. Poderia passar a receita para Ricardo Coutinho.
Veneziano Vital do Rêgo
Um líder afoito, atrevido, obstinado, que é a sua principal característica, mas ainda tem um projeto muito ‘campinista’. Precisa ter um projeto fora de Campina Grande.
José Maranhão
Um líder muito vivido, muito experiente, muito maduro, refletido, e um tanto concentrador.
Luciano Agra
Uma incógnita.
Luciano Cartaxo
Segunda incógnita.
O maior desafio da Paraíba
Vencer a seca e o analfabetismo.
Gostaria de ver diferente na Paraíba daqui há dez anos?
Que as lideranças novas pensassem totalmente diferente do que as velhas pensam.
Um arrependimento
Eita... Não sou muito de me arrepender das coisas... Talvez eu tivesse agido melhor em 1998 não assumindo a candidatura a governador e renovando o meu mandato de deputado federal. Mas acho que foi importante haver uma oposição naquela eleição.
Um orgulho
A construção da minha família. O papel de chefe de família eu cumpro muito bem.
Uma pessoa fundamental na sua vida?
Minha mulher, meus filhos, meus netos, meu pai e minha mãe.
Uma viagem inesquecível
Às casas de velhos eleitores amigos. (Olhos marejados)
Bebida preferida
Um vinho.
Mania ou hábito?
Dormir tarde. E acordar cedo.
Uma música?
Eita... Uma música recente de Paula Fernandes que é de Renato Teixeira, não me veio o nome agora. E toda a obra de Luiz Gonzaga.
Um filme?
Os dos maiores gênios do cinema: Charlie Chaplin e John Wayne. Toda a obra deles.
Um livro?
A Bíblia Sagrada.
Uma frase?
Sou frasista, gosto de mais de trezentas. Mas para citar uma especial: “O comportamento é o espelho no qual refletimos a nossa própria imagem”, de Goethe.
Ytalo Kubitschek
MaisPB

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